sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A fronteira entre a amizade e o amor.



Há na pura amizade um prazer a que não podem atingir os que nasceram medíocres.
A amizade pode subsistir entre pessoas do mesmo sexo a diferentes, isenta mesmo de toda a materialidade.
Uma mulher, entretanto, olha sempre um homem como um homem; e reciprocamente, um homem olha uma mulher como uma mulher; essa ligação não é paixão nem pura amizade: constitui uma classe aparte.
O amor nasce bruscamente, sem outra reflexão, por temperamento, ou por fraqueza: um detalhe de beleza nos fixa, nos determina.
A amizade, pelo contrário, forma-se pouco a pouco, com o tempo, pela prática, por um longo convívio.Quanta inteligência, bondade, dedicação, serviços e obséquios, nos amigos, para fazer, em anos, muito menos do que faz, às vezes, num minuto, um rosto bonito e uma bela mão!
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o amor.
Enquanto o amor dura, subsiste por si, e às vezes pelo que parece dever extingui-lo: caprichos, rigores, ausência, ciúme; a amizade, pelo contrário, precisa de alento: morre por falta de cuidados, de confiança, de atenção.
É mais comum ver um amor extremo que uma amizade perfeita.O amor e a amizade excluem-se um ao outro.
Aquele que teve a experiência de um grande amor descuida a amizade; e quem se esgotou na amizade ainda não fez nada para o amor.
O amor começa pelo amor, e só se passaria da mais forte amizade para um amor fraco. Nada se parece mais com uma viva amizade do que essas ligações que o interesse do nosso amor nos faz cultivar.




Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"

2 comentários:

Anónimo disse...

Um texto simplesmente fabuloso e que nos leva á realidade.
Bem haja para ti por teres inserido estas sábias palavras em teu blog em conjunto com uma imagem lindíssima.

Parabéns.

dreams.and.nigthmares disse...

José neves:
Bem vindo e obrigado.
Acho que tanto um sentimento como outro sao os pilares de qualquer existencia,nao é? fundamentais os dois ,e ao mesmo tempo tão distintos.
Volte sempre
Bj