quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Adeus



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.




Eugénio de Andrade





3 comentários:

  1. O Vazio

    Quando estou sozinho e louco sem ti
    Sinto só vazio dentro de mim
    Todo este tempo é, para mim, sem fim
    Pois eu somente te quero a ti

    Olho para o espelho e vejo-te
    Vejo-te a ti a olhares para mim
    Com muitas flores num grande jardim
    Vejo o teu rosto e tento beijar-te

    Mas percebo, então, que quem lá estava
    Era eu, sem ti... Supreso fiquei
    E um vazio instalou-se em mim

    Um sofrimento que não acabava
    A busca foi longa, só me magoei
    Vi-te, beijei-te e perdi-me, assim!

    ResponderEliminar
  2. O poeta da palavra :) lindo!

    http://sempreluacheia.blogspot.com

    Heraclita*

    ResponderEliminar
  3. De saída

    Lenços brancos
    em abanos
    tantos
    desencantos,
    enganos ...
    Repentino silêncio...
    cessando clamores
    amarguradas dores,
    calando o vozerio,
    etéreo vazio...
    A partida solitária.
    (Maurélio Machado)

    ResponderEliminar