quarta-feira, 20 de maio de 2009

sábado, 16 de maio de 2009



O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

(...)

Respira-nos, repara, a ilusão
de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.







José Miguel Silva, in "Ulisses já não mora aqui"

quarta-feira, 13 de maio de 2009


Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.







in "Fazes-me Falta", Inês Pedrosa

terça-feira, 12 de maio de 2009



A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.





Gonçalo M. Tavares, in "A Máquina de Joseph Walser"


Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais
Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair
Mil perdões








Chico Buarque/1983
Para o filme "Perdoa-me por me traíres", de Braz Chediak

domingo, 10 de maio de 2009



Como sabes eu vivo de relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu- íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. (...) Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que uma sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim.









in "Fazes-me Falta", Inês Pedrosa

quinta-feira, 7 de maio de 2009


Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento







Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu.
Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.
Fernando Pessoa

- Tu afirmavas que os seres que se gabam de explicar e de compreender o mundo são sempre incapazes de o modificar?- Sim - respondeu o mestre. - O Verdadeiro e o Falso são as escapatórias daqueles que se recusam sempre a tomar uma decisão. Porque a verdade é uma coisa sem fim.





Robert Musil, in "O Homem sem Qualidades"

segunda-feira, 4 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009


(...)
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.






Alberto Caeiro


Sabe, ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto de que havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós? Se eu próprio seria capaz? Escute, gostaria de ser, sê-lo-ei. Sim, seremos todos capazes, um dia, e será a salvação. Mas não é fácil, porque a amizade é distraída, ou, pelo menos, impotente. O que ela quer não pode. Acaso, no fim de contas, não o quererá bastante? Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, arrumar a homenagem entre o copo de água e uma gentil amante, nas horas vagas, em suma. Se algo nos impusessem, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto de fresco que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós próprios.







in "A Queda", Albert Camus

segunda-feira, 27 de abril de 2009



Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio
de um cais frio. Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.






Amalia Bautista em Tres deseos; Renacimiento, Sevilla, 2006

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Estranho como o sorriso de um bisturi.
Íntimo como um olho sem pálpebra aberto na nossa mão.
Deslumbrante como o rumor da passagem de um unicórnio.
Fiel como a súbita seda negra do medo.
Temível como o brilho da espada de fogo de um arcanjo.
Submisso como as ondas que rebentam contra a praia de um peito.
Devastador como a clareza de um olhar num espelho quebrado.
Inevitável como a ferida feita pela chuva num coração de pedra,
o amor chega um dia à nossa vida e nós não estamos.








Abelardo Linares (Trad. Joaquim Manuel Magalhães)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tu



Tu que, escondido, me espias; que me lês incógnito; que, omisso, julgas que me observas... não penses que me conheces.
Tu que, com a tua passividade, te pensas esperto; que, aninhado no teu silêncio, acreditas que me podes ter… não sabes é nada.
Em cada palavra minha, existe uma ratoeira; em cada frase, uma armadilha; em cada pensamento, uma farsa; em cada rosto, muitas caras, onde caiem os inofensivos e os predadores, onde se enganam e se perdem os que se pensam sábios. Como tu. Meu Amor.





(in Http://easfadastambemseenganamnocaminho.blogspot.com )

domingo, 19 de abril de 2009

sábado, 18 de abril de 2009



Há momentos em que parto não sei para onde. Navegação espiritual. Ou dispersão na terra abstracta, a única que se vê quando não se vê. São as grandes caçadas dentro de mim mesmo, a busca da magia perdida, uma palavra cintilante, uma perdiz imaginária, um sopro, um ritmo, uma espécie de bafo. Como o teu. Às vezes sinto-o, outras não. Mas sei que estás aí, algures, enroscado na minha própria solidão.







Manuel Alegre in "Cão Como Nós"

quinta-feira, 16 de abril de 2009



(...)
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
'Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
(...)





Fernando Pessoa

domingo, 12 de abril de 2009



Se antes de cada acto nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.




José Saramago, in "Ensaio sobre a Cegueira"

sábado, 11 de abril de 2009