sexta-feira, 7 de setembro de 2007



Passa de vez em quando uma rapariga numa vida,uma rapariga alta e morena, com cabelo até à cintura,que olha para trás e para nós como se nos pedisse para dizer "eu vou matar-me". E essa rapariga só precisa de um segundo, de um pequeno segredo,que nos esconde na alma,sem se importar com isso.E fica-nos para o resto da vida,presente em todos os instantes da vida, atravessada nas nossas poucas alegrias.
Arruina-nos os amores,passando pelos quartos onde estamos deitados com raparigas muito piores e olhando por cima dos ombros como se tivesse pena de nós.
Às vezes passa uma rapariga na vida que nunca mais deixa de passar,que nos interrompe e condena e encanta,sem saber o mal e o bem que nos faz e que nos fica na alma...como aquelas pessoas que passam no momento em que se tira uma fotografia e passam a ser a pessoa que
se fotografou (...).


Miguel Esteves Cardoso

“Se te pudesse dizer, o que nunca te direi,tu terias que entender aquilo que nem eu sei!”



Fernando Pessoa




Todos nós temos necessidade de ser olhados.
Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver:
A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, o olhar do público(…)
Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de coktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os olhares que precisam.
Vem em seguida e terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão.
Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores.


Milan Kundera - “A insustentável leveza do ser”

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Atéia.



"Já uma vez antes, como crianças de tenra idade, nos encontramos em semelhante estado de desamparo, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, contudo estávamos certos de sua protecção. Com relação à distribuição dos destinos, persiste a desagradável suspeita de que a perplexidade e o desamparo da raça humana não podem ser remediados. Isto justifica o anseio do homem pelo pai e pelos deuses, que mantém sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, particularmente a demonstrada pela morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida lhe impôs. Assim se criou a religião, da necessidade que tem o homem de tolerar o desamparo, e construída com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância, na continuação de um protótipo infantil universal.”
Sigmund Freud, in 'O Futuro de uma Ilusão'



“A fé é a crença ilógica na existência do improvável.”
Fernando Krynski Bianchi



"Acreditar é mais fácil do que pensar. Daí existem muito mais crentes do que pensadores.”
Bruce Calvert



“Invocar o não-conhecível para explicar o “Desconhecido” é um beco sem saída intelectual.”
Neal M. Stevens



"Se deus queria que as pessoas acreditassem nele, por que então ele inventou a lógica?”
David Feherty



“Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus.”
Millor Fernandes



“Se a bíblia está errada ao nos dizer de onde viemos, como podemos confiar nela ao dizer pra onde iremos?”
Justin Brown



“Algum homem primitivo um dia inventou a faca, para cortar peles e alimentos. Eis o cientista. Outro roubou seu invento e então o usou para matar. Eis o empresário. Outro regularizou aquele roubo e os assassinatos. Eis o político. Outro justificou a matança dizendo que era o desígnio de algum deus. Eis o religioso”.
Francisco Saiz.



“O facto que um crente é mais feliz do que um céptico não é mais pertinente do que o facto que um homem bêbado é mais feliz do que um sóbrio. A felicidade da credulidade é uma qualidade barata e perigosa.”
George Bernard Shaw






...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou cova,
E depois o principio de morte da tua memoria.
Há primeiro em todos um alivio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois,lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas,aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste,quando faz anos que morreste;
Mais nada,absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.


Álvaro de Campos

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”
Florbela Espanca

Andamos á procura...





Vamos pela vida intercalando épocas de entusiasmo com épocas de desilusão. De vez em quando andamos inchados como velas e caminhamos velozes pelo mar do mundo; noutras ocasiões - mais frequentes do que as outras - estamos murchos como folhas que o tempo engelhou. Temos períodos dourados, em que caminhamos sobre nuvens e tudo nos parece maravilhoso, e outros - tão cinzentos! - em que talvez nos apetecesse adormecer e ficar assim durante o tempo necessário para que tudo voltasse a ser belo.
Acontece-nos a todos e constitui, sem dúvida, um sinal de imaturidade. Somos ainda crianças em muitos aspectos.
A verdade é que não temos razões para nos deixarmos levar demasiado por entusiasmos, pois já devíamos ter aprendido que não podem ser duradouros.
A vida é que é, e não pode ser mais do que isso.
Desejamos muito uma coisa, pensamos que se a alcançarmos obtemos uma espécie de céu, batemo-nos por ela com todas as forças. Mas quando, finalmente, obtemos o que tanto desejávamos, passamos por duas fases desconcertantes. A primeira é um medo terrível de perder o que conquistámos: porque conhecemos o que aconteceu anteriormente a outras pessoas em situações semelhantes à nossa; porque existe a morte, a doença, o roubo…
A segunda fase chega com o tempo e não costuma demorar muito: sucede que aquilo que obtivemos perde - lentamente ou de um dia para o outro - o encanto. Gastou-se o dourado, esboroou-se o algodão das nuvens. Aquilo já não nos proporciona um paraíso.
E é nesse momento que chega a desilusão, com todo o seu cortejo de possíveis consequências desagradáveis: podem passar-nos pela cabeça coisas como mudarmos de profissão, mudarmos de clube, trocarmos de automóvel ou de casa, divorciarmo-nos… E, então, surge o desejo de partir atrás de outro entusiasmo: queremos voltar a amar…
Nunca mais conseguimos aprender o que é o amor.
Se nos desiludimos, a culpa não está nas coisas nem está nas outras pessoas. Se nos desiludimos, a culpa é nossa: porque nos deixámos iludir; porque nos deixámos levar por uma ilusão. Uma ilusão - há quem ganhe a vida a fazer ilusionismo - consiste em vestir com uma roupagem excessiva e falsa a realidade, de modo a distorcê-la ou a fazê-la parecer mais do que aquilo que é.
Quando nos desiludimos não estamos a ser justos nem com as pessoas nem com as coisas.
Nenhuma pessoa, nenhuma das coisas com que lidamos pode satisfazer plenamente o nosso desejo de bem, de felicidade, de beleza. Em primeiro lugar porque não são perfeitas (só a ilusão pode, temporariamente, fazer-nos ver nelas a perfeição). Depois, porque não são incorruptíveis nem eternas: apodrecem, gastam-se, engelham-se, engordam, quebram-se, ganham rugas… terminam.
Aquilo que procuramos - faz parte da nossa estrutura, não o podemos evitar - é perfeito e não tem fim. E não nos contentamos com menos de que isso. É por essa razão que nos desiludimos e que de novo nos iludimos: andamos à procura…
De resto, se todos ambicionamos um bem perfeito e eterno, ele deve existir. Só pode acontecer que exista. Mas deve ser preciso procurar num lugar mais adequado.

Paulo Jorge Geraldo

DESFECHO.



Não tenho mais palavras… Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
Fosse qual fosse o chão da minha caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a sua solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga




"Recordar é caminhar sozinho de volta ao curso de um rio seco."


Ossip Mandeinstam

quarta-feira, 5 de setembro de 2007


A característica especial da paixão é arder até às cinzas e extinguir-se
por completo. Então, as cinzas são sopradas pelo vento e nada mais
resta.

João Aguiar in "A Voz dos Deuses"

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ’screvo.





Fernando Pessoa


"Santo é um pecador morto, revisto e corrigido."


Ambrose Bierce

...


(...)Quando se é feliz muito novo, a única obsessão que se tem é aguentar a coisa. Vive-se ansiosamente com a desconfiança, quase certeza da coisa piorar. O pior é que as pessoas que se habituaram a serem felizes não sabem sofrer. Sofrem o triplo de quem já sofreu.É injusto mas é assim.
No amor é igual. Vive-se à espera dele e, quando finalmente se alcança, vive-se com medo de perdê-lo. E depois de perdê-lo, já não há mais nada para esperar. Continuar é como morrer. As pessoas haviam de encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela.


Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Elogio ao amor

Quero fazer o elogio do amor puro.

Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.

Já ninguém quer viver um amor impossível.

Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e a mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, e na medida do possível.

O amor tornou-se uma questão pratica. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade,ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas,farto de compreenções, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia,são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem,tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides,borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.

O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz.É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida ás vezes mata o amor. A"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.

Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar é não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra.

A vida dura a vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.


Miguel Esteves Cardoso in Expresso

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Contradições



Tranquilidade e segurança: Coisas que todos desejam. Barco ancorado não naufraga. Avião em hangar não cai. Para viver em segurança as pessoas constroem gaiolas e passam a viver dentro delas. Dentro das gaiolas não há perigos. Só há monotonia. Todo dia a mesma coisa. Tudo o que acontece todo dia do mesmo jeito é chato. Esse É O PREÇO DA SEGURANÇA: A CHATICE.

Rubem Alves



...porém...



A liberdade é irmã da solidão.

Léa Waider

Muriel


Às vezes se te lembras procurava-te

retinha-te esgotava-te e se te não perdia

era só por haver-te já perdido ao encontrar-te

Nada no fundo tinha que dizer-te

e para ver-te verdadeiramente

e na tua visão me comprazer

indispensável era evitar ter-te

Era tudo tão simples quando te esperava

tão disponível como então eu estava

Mas hoje há os papéis há as voltas dar

há gente à minha volta há a gravata

Misturei muitas coisas com a tua imagem

Tu és a mesma mas nem imaginas

como mudou aquele que te esperava

Tu sabes como era se soubesses como é

Numa vida tão curta mudei tanto

que é com certo espanto que no espelho da manhã

distraído diviso a cara que me resta

depois de tudo quanto o tempo me levou

Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid

havia as ruas as pessoas o anonimato

os bares os cinemas os museus

um dia vi-te e desde então madrid

se porventura tem ainda para mim sentido

é ser solidão que te rodeia a ti

Mas o preço que pago por te ter

é ter-te apenas quanto poder ver-te

e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te

Sou muito pobre tenho só por mim

no meio destas ruas e do pão e dos jornais

este sol de Janeiro e alguns amigos mais

Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo

pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te

Eu aprendi a ver a minha infância

vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos

e penso que se bach hoje nascesse

em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior

que esta mesma tarde num concerto ouvi

teria concebido aqueles sweet hunters

que esta noite vi no cinema rosales

Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem

E penso que se nunca a bem dizer te vejo

se fosse além de ver-te sem remédio te perdia

Mas eu dizia que te via aqui e acolá

e quando te não via dependia

do momento marcado para ver-te

Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te

e antes de chegares já lá estavas

naquele preciso sítio combinado

onde sempre chegavas sempre tarde

ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses

se ausente mais presente pela expectativa

por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente

Mas sabia e sei que um dia não virás

que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste

ou até se exististe ou se eu mesmo existi

pois na dúvida tenho a única certeza

Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?

Aquela hora certa aquele lugar?

À força de o pensar penso que não

Na melhor das hipóteses estou longe

qualquer de nós terá talvez morrido

No fundo quem nos visse àquela hora

à saída do metro de serrano

sensivelmente em frente daquele bar

poderia pensar que éramos reais

pontos materiais de referência

como as árvores ou os candeeiros

Talvez pensasse que naqueles encontros

em que talvez no fundo procurássemos

o encontro profundo com nós mesmos

haveria entre nós um verdadeiro encontro

como o que apenas temos nos encontros

que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes

Isso era por exemplo o que me acontecia

quando há anos nas manhãs de roma

entre os pinheiros ainda indecisos

do meu perdido parque de villa borghese

eu via essa mulher e esse homem

que naqueles encontros pontuais

Decerto não seriam tão felizes como neles eu

pois a felicidade para nós possível

é sempre a que sonhamos que há nos outros

Até que certo dia não sei bem

Ou não passei por lá ou eles não foram

nunca mais foram nunca mais passei por lá

Passamos como tudo sem remédio passa

e um dia decerto mesmo duvidamos

dia não tão distante como nós pensamos

se estivemos ali se madrid existiu

Se portanto chegares tu primeiro porventura

alguma vez daqui a alguns anos

junto de califórnia vinte e um

que não te admires se olhares e me não vires

Estarei longe talvez tenha envelhecido

Terei até talvez mesmo morrido

Não te deixes ficar sequer à minha espera

não telefones não marques o número

ele terá mudado a casa será outra

Nada penses ou faças vai-te embora

tu serás nessa altura jovem como agora

tu serás sempre a mesma fresca jovem pura

que alaga de luz todos os olhos

que exibe o sossego dos antigos templos

e que resiste ao tempo como a pedra

que vê passar os dias um por um

que contempla a sucessão de escuridão e luz

e assiste ao assalto pelo sol

daquele poder que pertencia à lua

que transfigura em luxo o próprio lixo

que tão de leve vive que nem dão por ela

as parcas implacáveis para os outros

que embora tudo mude nunca muda

ou se mudar que se não lembre de morrer

ou que enfim morra mas que não me desiluda

Dizia que ao chegar se olhares e não me vires

nada penses ou faças vai-te embora

eu não te faço falta e não tem sentido

esperares por quem talvez tenha morrido

ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

domingo, 2 de setembro de 2007

Começar de novo.



Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação de vida.
Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialéctico que constitui o próprio modo de estar no mundo.
Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade actuantes.
Perder implica remoção de detritos: começar de novo.



Carlos Drummond de Andrade

Rebelde.


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!




"Cântico Negro" :José Régio

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

...

O trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver.




Dr. Jorge Bucay in "Hay que buscarse un Amante"

Sem ilusões...

Não é raro ouvirmos falar sobre histórias de amor mal resolvidas. São aquelas relações que, por qualquer motivo, não deram certo, terminaram, as partes separaram-se, cada um foi para seu lado.
A vida seguiu o seu curso, apaixonaram-se novamente, sofreram mais uma vez – ou muitas – eventualmente casaram-se, tiveram filhos, viveram coisas totalmente paralelas. Mas a história está lá, no que eu chamo de “ canto escuro do coração”. Uma vez ou outra – geralmente quando a vida está destemperada – abrem os seus “baús de recordações” e dão de cara com ela: a história mal resolvida, o conto de fadas que não se realizou.
Então fantasiam um romance perfeito.
Esquecem o que os fez romper, deixando para trás aquela pessoa. De repente, ela é o parceiro ideal.
Na imaginação fugaz, não tem defeitos, não envelheceu, jamais errou: virou um ser etéreo, personagem de uma memória que só abarca o sonho.
Dentro desse cenário “o que não foi” é o que realmente incomoda. E cria corpo. O “como teria sido se…” começa a andar ao encalço quando se rejeita a realidade: ele agiganta-se e toma o leme. As rédeas de duas vidas – ou mais – correm o risco de pararem nas mãos de um destino inventado.
Estou a escrever sobre isso porque conheço algumas histórias assim – com frequência nos últimos meses. O mundo parece que tem febres e esta deve ser uma delas nesta temporada: tentar recomeços – tu também deves conhecer casos sobre o empenho em reconquistar os/as ex.
Os envolvidos dizem que estão “tatuados” por aquele amor e que, mesmo que o esqueçam, o superam, o deixam para lá, a “tatuagem” os chama de volta. Então, correm atrás do “tempo perdido”, tentando recuperar o tempo e o amor, com uma força de vontade e espírito surpreendentes.
Infelizmente, raramente dá certo. Na ânsia de uma re–união – quase impossível, eu diria – esquecem de avaliar quem é o outro depois que seguiu um caminho o qual eles não tiveram acesso. Esquecem, inclusive, que não são mais, eles mesmos, os mesmos de cinco, dez, quinze, vinte anos atrás.
Entretanto, não adianta alertar: precisam passar pela frustração para entender que alguns amores simplesmente têm dia e hora para acabar, e uma vez de frente a esse momento, murcham, morrem, extinguem-se. Deixam marcas, saudades, lembranças, mas não nos pertencem mais.
É pena que muita gente viva nesse círculo vicioso do irrecuperável, em tentativas vãs, que só causarão mais dor. Ao invés de irem em frente, pés no chão, preferem focar-se no devaneio louco que acabará por levá-las para dentro de si mesmas com a irremediável pergunta: “Que é que estou a fazer comigo?”
Eu tive sorte neste sentido: fechei todos os ciclos. Olho para as minhas histórias de amor com carinho junto á certeza de que elas foram vividas intensamente e ficaram onde devem ficar: no passado. Sem ilusões…


(autor desconhecido)


...porque concordo.