terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

METADE


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
E a outra metade não sei

Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é a canção

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.




Oswaldo Montenegro

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O motivo.



"Acredito que se possa morrer de amor... mas também se pode morrer de falta de amor.
Se eu já amei?... Tenho medo de não ter vivido um grande amor, mas tenho mais medo que ele tenha passado por mim, sem eu ter dado por isso..."




Mário Cesariny, no filme Autografia de Miguel Gonçalves Mendes






Simplicidade.



A simplicidade é o esquecimento de si, do seu orgulho e do seu medo; é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor contra amor-próprio, verdade contra pretensão…o eu subsiste nela, é claro, mas como que mais leve, purificado, libertado.
Para quê essas perpétuas voltas sobre si mesmo? Nunca acabaríamos de nos avaliar, de nos julgar, de nos condenar…Nossas melhores acções são suspeitas; nossos melhores sentimentos, equívocos. O simples sabe disso e nem se importa. Ele não se interessa suficientemente para se julgar. Ele não se leva nem a sério nem a trágico. Segue o seu pequeno caminho, de coração leve, alma em paz, sem objectivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é o seu reino e lhe basta. O presente é a sua eternidade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais simples que a simplicidade?




André Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, do ensaio sobre a Simplicidade, Martins Fontes, pg. 170.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Forgiven.




Within Temptation


Porque há musicas que nos tocam,que nos arrepiam,que nos consomem a alma,que nos levam o espírito.
Porque gosto.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Deixarei que o teu nome se perca repetido. Mas espera-me; Pois por mais longos que sejam os caminhos eu regresso.

Sophia de Mello Breyner






Fala-se geralmente dos poetas como de pessoas em quem não se pode depositar muita confiança, sob o ponto de vista psicológico, mas os factos e a história contradizem completamente esse preconceito. Muitos dos poetas verdadeiramente grandes foram, não somente equilibrados, mas também dotados de senso prático; (…) A imaginação não gera a insanidade; o que gera a insanidade é exactamente a razão. Os poetas não enlouquecem, mas os jogadores de xadrez, esses, sim, enlouquecem. Os matemáticos e os contadores muitas vezes ficam doidos; os artistas criadores muito raramente. Não pretendo, como se verá adiante, atacar a lógica: quero apenas frisar que é aí, na lógica, e não na imaginação, que está o perigo. A paternidade artística é tão salutar como a paternidade física. Deve-se notar, além disso, que os poetas realmente mórbidos foram os que tiveram algum ponto fraco de racionalismo. (…)
O facto geral é simples. A poesia é sã porque flutua à vontade num mar infinito; a razão, porém, procura atravessar o mar infinito, tornando-o finito. O resultado disso é um esgotamento mental (…). Aceitar todas as coisas é um exercício, mas compreender todas as coisas é um frenesim. O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo onde se possa distender. Pretende ele, simplesmente, enfiar a cabeça nos céus, ao passo que o lógico se esforça por enfiar os céus na cabeça. E é a cabeça que estala.




Chesterton in,"The Poet and the Lunatics"






...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009



Existem alguns grandes critérios imutáveis que revelam o valor do homem. Um deles é a dor; é a prova mais dura no seio desta sucessão de provas que se costuma chamar vida. É por isso que uma meditação sobre a dor é forçosamente impopular: contudo, ela é não só rica em ensinamentos, como também esclarece uma série de questões que nos preocupam hoje. A dor é uma dessas chaves que abrem não só a intimidade do homem, mas também o mundo como um todo. Se se chegar ao ponto no qual o homem se mostra à altura da dor ou mesmo superior a ela, acede-se às fontes do seu poder e ao segredo que se esconde atrás da sua dominação. Diz-me qual é tua relação com a dor, e dir-te-ei quem és!…




Ernst Jünger, Sur la douleur, trad. J. Hervier, Nantes, Le Passeur, 1994,

One Day I'll Fly Away.



Os homens de profunda tristeza denunciam-se quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade, como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!




Friedrich Nietzsche.in "Além do bem e do mal",pag. 189 (Companhia das Letras)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Quando dizemos que a vida é um drama, cremos não nos expressar muito bem. O drama designa a acção que se desenrola num palco, cujas consequências fatais advinhamos, mas as quais, até o último momento, permanecem desconhecidas. A certeza de que o pior se dará in fini não é a presciência da maneira exacta como ele se produzirá. Apesar de previsível e inelutável, o pior é sempre surpreendente. É nesse sentido que a minha vida é dramática. No cerne de circunstâncias que ninguém pode enfrentar em meu lugar, que requerem a minha força e o meu discernimento, nunca sei onde me situo. Sinto-me perdido: ao mesmo tempo desnorteado e na perdição. Por mais que procure e fixe referências para mim, eu as apago à medida que me debato. Vã gesticulação que dá ares de acção, ainda mais patética por eu tomar consciência dela e não poder fazer nada. Se viver é sentir-se perdido, a lucidez é saber-se perdido.




Frédéric Schiffter



Neque ego ipse capio totum quod sum.

Should i stay?





Gabrielle

Que eu fico aqui eterno à tua espera...


Quero que gostes de Pina Baush,ou até já nem gostes,
Queiras mais queiras diferente;
Que gostes da cor e do risco forte de Miró
E do canto desiludido e fundo de Ferré;
Quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
Do grande bruto grande e do pequeno sensivel e pequeno
Quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
Representes a cortesã mais lassa para mim;
Quero-te com mãos de pedra e veludo;
Quero que ames o chique e a Serra de d'Aire
-mais o safari que a recepção.
Quero que mores e sofras nas páginas de Bruno Crepax
E te irrites com a perfeição absoluta de um retraro de Medina
Quero que se possivel vivas dentro dum anúncio do Martini
Felina e ondulante numa ilha tropical
Quero que ames o longe e a miragem,como Régio
E que sejas louca e sábia
Que tenhas lábios e mordas
Sorvedouro inteiro de vida,arrepio de garça,sacudir de cisne
Passos de corça graça de Arlequim
Pose de Diva,corpo de areia e luz
E quero que me dês,que me dês muito,que me dês tudo
E que abras as janelas de par em par ao tejo
E fecundes um poema em cada gesto
E voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Indía em cada cacilheiro
E que sejas,mores,vivas e creias
longe
Muito longe daqui
Quero que sejas profundamente minha e ritual
Obsessiva e lúcida,febril,tremente de desejo
Disposta a tudo e a mais a muito mais,
Boca de mundo,seios de mármore,corpo de mulher e sobretudo mulher
E sobretudo amante
Se existires assim,nua inteira,absoluta e pessoal
Responde-me
Que eu fico aqui eterno à tua espera




Pedro Barroso


Quanto mais alto nos elevamos, tanto menores parecemos àqueles que não podem voar.



Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Não posso...



Não posso adiar o amor para outro século.
Não posso.
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda (...)
Não posso adiar para outro século a minha vida, nem o meu amor, nem o meu grito de libertação.
Não posso adiar o coração.



Eugénio de Andrade

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Are you the one?




Within Temptation


Há muito que a cadeira está vazia.
Há muito que ela deixou de lá se sentar.
Ficaram lá debaixo os sonhos enterrados, as melodias de sempre a serem empurradas bem para o fundo.
Sem o molde do corpo dela, ficou só a cadeira, a sufocar qualquer coisa que a vida se foi esquecendo de ser.
Antes ela sentava-se ali todos os dias. E esperava. Havia sempre algo por que valia a pena esperar. Porque ainda não lhe tinham dito a verdade. E então ela acreditava, talvez porque o céu fosse quase sempre azul e o mar lhe fizesse prova de confiança de cada vez que lhe vinha beijar os pés.
Mas há muito que a cadeira está vazia agora.
Nota-se talvez na própria paisagem repleta do cinzento da ausência, e cheia de um nada por que ela pudesse esperar.
Foi exactamente ali que ela se desiludiu. Com ela mesma, com os outros, com as esperas em vão e até com o próprio mar que ás vezes se esquecia de a vir acariciar. E era sempre tão pouco o que ela esperava.
Muitas vezes apenas que os outros soubessem compreender e receber o que ela tinha para dar. Porque questionava-se frequentemente o que fazer com a ternura que tinha para dar...
Penso que fazemos isso quando o espaço à nossa volta não a parece conseguir conter. E isso entristecia-a. E fazia com que abandonasse a cadeira em que costumava sentar-se.
Cansou-se de estar ali. A cadeira abandonada confundiu-se com o cenário. Os dias foram deixando de se lembrar das coisas pequeninas, das aparentes insignificâncias. Aquelas pelas quais ela se sentava e esperava.
Agora não. Não vale a pena esperar pelo que ela sabe que não vai chegar. Talvez o lugar na cadeira nunca tenha sido realmente dela. Talvez a vida se tenha mesmo esquecido de acontecer mais vezes




Autor desconhecido

Or not...

Porque há sitios onde precisamos de voltar...
Porque existem sempre espaços para preencher.
Porque tudo é nada e nada é tudo e no meio do tudo e do nada encontro-me eu...
Porque sim.

I'm back.