
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
METADE

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O motivo.
Simplicidade.

A simplicidade é o esquecimento de si, do seu orgulho e do seu medo; é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor contra amor-próprio, verdade contra pretensão…o eu subsiste nela, é claro, mas como que mais leve, purificado, libertado.
Para quê essas perpétuas voltas sobre si mesmo? Nunca acabaríamos de nos avaliar, de nos julgar, de nos condenar…Nossas melhores acções são suspeitas; nossos melhores sentimentos, equívocos. O simples sabe disso e nem se importa. Ele não se interessa suficientemente para se julgar. Ele não se leva nem a sério nem a trágico. Segue o seu pequeno caminho, de coração leve, alma em paz, sem objectivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é o seu reino e lhe basta. O presente é a sua eternidade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais simples que a simplicidade?
André Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, do ensaio sobre a Simplicidade, Martins Fontes, pg. 170.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Forgiven.
Within Temptation
Porque há musicas que nos tocam,que nos arrepiam,que nos consomem a alma,que nos levam o espírito.
Porque gosto.
sábado, 7 de fevereiro de 2009

Fala-se geralmente dos poetas como de pessoas em quem não se pode depositar muita confiança, sob o ponto de vista psicológico, mas os factos e a história contradizem completamente esse preconceito. Muitos dos poetas verdadeiramente grandes foram, não somente equilibrados, mas também dotados de senso prático; (…) A imaginação não gera a insanidade; o que gera a insanidade é exactamente a razão. Os poetas não enlouquecem, mas os jogadores de xadrez, esses, sim, enlouquecem. Os matemáticos e os contadores muitas vezes ficam doidos; os artistas criadores muito raramente. Não pretendo, como se verá adiante, atacar a lógica: quero apenas frisar que é aí, na lógica, e não na imaginação, que está o perigo. A paternidade artística é tão salutar como a paternidade física. Deve-se notar, além disso, que os poetas realmente mórbidos foram os que tiveram algum ponto fraco de racionalismo. (…)
O facto geral é simples. A poesia é sã porque flutua à vontade num mar infinito; a razão, porém, procura atravessar o mar infinito, tornando-o finito. O resultado disso é um esgotamento mental (…). Aceitar todas as coisas é um exercício, mas compreender todas as coisas é um frenesim. O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo onde se possa distender. Pretende ele, simplesmente, enfiar a cabeça nos céus, ao passo que o lógico se esforça por enfiar os céus na cabeça. E é a cabeça que estala.
Chesterton in,"The Poet and the Lunatics"
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Existem alguns grandes critérios imutáveis que revelam o valor do homem. Um deles é a dor; é a prova mais dura no seio desta sucessão de provas que se costuma chamar vida. É por isso que uma meditação sobre a dor é forçosamente impopular: contudo, ela é não só rica em ensinamentos, como também esclarece uma série de questões que nos preocupam hoje. A dor é uma dessas chaves que abrem não só a intimidade do homem, mas também o mundo como um todo. Se se chegar ao ponto no qual o homem se mostra à altura da dor ou mesmo superior a ela, acede-se às fontes do seu poder e ao segredo que se esconde atrás da sua dominação. Diz-me qual é tua relação com a dor, e dir-te-ei quem és!…
Ernst Jünger, Sur la douleur, trad. J. Hervier, Nantes, Le Passeur, 1994,
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Que eu fico aqui eterno à tua espera...

Queiras mais queiras diferente;
Que gostes da cor e do risco forte de Miró
E do canto desiludido e fundo de Ferré;
Quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
Do grande bruto grande e do pequeno sensivel e pequeno
Quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
Representes a cortesã mais lassa para mim;
Quero-te com mãos de pedra e veludo;
Quero que ames o chique e a Serra de d'Aire
-mais o safari que a recepção.
Quero que mores e sofras nas páginas de Bruno Crepax
E te irrites com a perfeição absoluta de um retraro de Medina
Quero que se possivel vivas dentro dum anúncio do Martini
Felina e ondulante numa ilha tropical
Quero que ames o longe e a miragem,como Régio
E que sejas louca e sábia
Que tenhas lábios e mordas
Sorvedouro inteiro de vida,arrepio de garça,sacudir de cisne
Passos de corça graça de Arlequim
Pose de Diva,corpo de areia e luz
E quero que me dês,que me dês muito,que me dês tudo
E que abras as janelas de par em par ao tejo
E fecundes um poema em cada gesto
E voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Indía em cada cacilheiro
E que sejas,mores,vivas e creias
longe
Muito longe daqui
Quero que sejas profundamente minha e ritual
Obsessiva e lúcida,febril,tremente de desejo
Disposta a tudo e a mais a muito mais,
Boca de mundo,seios de mármore,corpo de mulher e sobretudo mulher
E sobretudo amante
Se existires assim,nua inteira,absoluta e pessoal
Responde-me
Que eu fico aqui eterno à tua espera
Pedro Barroso
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Não posso...
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Há muito que ela deixou de lá se sentar.
Ficaram lá debaixo os sonhos enterrados, as melodias de sempre a serem empurradas bem para o fundo.
Sem o molde do corpo dela, ficou só a cadeira, a sufocar qualquer coisa que a vida se foi esquecendo de ser.
Antes ela sentava-se ali todos os dias. E esperava. Havia sempre algo por que valia a pena esperar. Porque ainda não lhe tinham dito a verdade. E então ela acreditava, talvez porque o céu fosse quase sempre azul e o mar lhe fizesse prova de confiança de cada vez que lhe vinha beijar os pés.
Mas há muito que a cadeira está vazia agora.
Nota-se talvez na própria paisagem repleta do cinzento da ausência, e cheia de um nada por que ela pudesse esperar.
Foi exactamente ali que ela se desiludiu. Com ela mesma, com os outros, com as esperas em vão e até com o próprio mar que ás vezes se esquecia de a vir acariciar. E era sempre tão pouco o que ela esperava.
Muitas vezes apenas que os outros soubessem compreender e receber o que ela tinha para dar. Porque questionava-se frequentemente o que fazer com a ternura que tinha para dar...
Penso que fazemos isso quando o espaço à nossa volta não a parece conseguir conter. E isso entristecia-a. E fazia com que abandonasse a cadeira em que costumava sentar-se.
Cansou-se de estar ali. A cadeira abandonada confundiu-se com o cenário. Os dias foram deixando de se lembrar das coisas pequeninas, das aparentes insignificâncias. Aquelas pelas quais ela se sentava e esperava.
Agora não. Não vale a pena esperar pelo que ela sabe que não vai chegar. Talvez o lugar na cadeira nunca tenha sido realmente dela. Talvez a vida se tenha mesmo esquecido de acontecer mais vezes
Or not...
Porque existem sempre espaços para preencher.
Porque tudo é nada e nada é tudo e no meio do tudo e do nada encontro-me eu...
Porque sim.
I'm back.






