sábado, 21 de março de 2009



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.





Alberto Caeiro

1 comentário:

  1. A Noite na Ilha:
    Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
    Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
    entre o fogo e a água.
    Talvez bem tarde nossos
    sonos se uniram na altura e no fundo,
    em cima como ramos que um mesmo vento move,
    embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
    Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
    me procurava como antes, quando nem existias,
    quando sem te enxergar naveguei a teu lado
    e teus olhos buscavam o que agora - pão,
    vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
    porque tu és a taça que só esperava
    os dons da minha vida.
    Dormi junto contigo a noite inteira,
    enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
    de repente desperto e no meio da sombra meu braço
    rodeava tua cintura.
    Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
    Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
    saída de teu sono me deu o sabor da terra,
    de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
    e recebi teu beijo molhado pela aurora
    como se me chegasse do mar que nos rodeia.
    Pablo Neruda

    ResponderEliminar